Para todos os Confrades e Amigos, ficam os votos de um Bom 2012, com muito Policiário!
sábado, 31 de dezembro de 2011
sábado, 24 de dezembro de 2011
domingo, 18 de dezembro de 2011
POLICIÁRIO 1065
Poucos meses antes de falecer em Lisboa, Fernando Pessoa escreveu uma célebre carta ao seu amigo Adolfo Casais Monteiro, datada de 13 de Fevereiro de 1935, manifestando-lhe que estava a trabalhar numa novela policiária.
Hoje é mais ou menos consensual que se tratava de “O Roubo na Quinta das Vinhas” e ficamos a saber que Fernando Pessoa se debruçou sobre a temática policial e a desenvolveu, embora de forma algo anárquica, uma vez que nunca terá chegado ao final de qualquer dos seus trabalhos, ou seja, ao momento em que apenas faltaria a sua publicação.
Devemos a Fernando Luso Soares, um dos estudiosos mais brilhantes da obra policiária de Pessoa, a recolha de um imenso espólio de manuscritos e peças isoladas que ele, com muita dedicação e empenho, compilou e a que deu alguma coerência.
O DR. ABÍLIO QUARESMA
O Dr. Quaresma é o personagem policiário por excelência, de Fernando Pessoa. Sobre ele, escreve:
“É curioso como certos assuntos nos talham a mente conforme a sua natureza. Fui verdadeiramente amigo de Quaresma; verdadeiramente me dói a saudade dele; mas ao escrever a seu respeito, assumo, sem querer nem sentir, como aliás sempre faço, a frieza de quem é o meu tema, e não consigo ter uma lágrima em prosa. A personalidade de Quaresma insinua-se no que escrevo; meu estilo recusa-se a não ser frio. O mais curioso é que essa individualidade apagada e mortiça, vivendo toda uma vida subjectiva de problemas objectivos, ganhava uma nova e milagrosa energia quando resolvia um problema difícil. O Dr. Quaresma, normal, era um apenso débil à humanidade; o Dr. Quaresma, depois de decifrar, erguia-se num pedestal íntimo, hauria forças incógnitas, já não era a fraqueza de um homem; era a força de uma conclusão. Não se transformava – não direi tanto - mas transfigurava-se sem se transformar…”.
Há quem defenda que Pessoa iria desenvolver um novo heterónimo na figura do Dr. Abílio Fernandes Quaresma, um investigador de inteligência rara e espírito observador, que refere: “ A investigação de qualquer assunto depende, essencialmente, da plena segurança dos raciocínios (…) Nós não vemos só com os sentidos; vemos misturadamente, com a inteligência também. Elimino, agora, a hipótese anormal da alucinação. Refiro-me apenas à experiência normal. Um exemplo: passo por uma rua e vejo um homem caído no passeio. Instintivamente me pergunto: porque é que este homem caiu aqui? Já aqui vai um erro de raciocínio e, portanto, uma possibilidade de erro de facto. Eu não vi o homem cair ali. Vi-o já caído. Não é, portanto, um facto para mim que o homem caísse ali. O que é um facto para mim é que ele está caído ali (…) Creio ter-lhes mostrado bem como é complicado o que parece tão singelo. É preciso, em qualquer problema, separar cuidadosamente, logo no princípio, os dados e as conclusões…”.
A INTELIGÊNCIA NO POLICIÁRIO
Uma das marcas mais significativas da obra policiária de Fernando Pessoa vem, curiosamente, de uma personagem que aparece no conto esboçado “Janela Estreita” e que, à primeira vista, parece ser um novo investigador, em contraponto com o Dr. Quaresma e o Chefe Guedes. Trata-se do Tio Porco, um ser fascinante que diz a certo ponto:
“A inteligência humana pertence a uma de três categorias. A primeira categoria é a inteligência científica. É a sua, sr. Chefe Guedes. A inteligência científica examina os factos, e tira deles as suas conclusões. Direi melhor: a inteligência científica observa, e determina, pela comparação das coisas observadas, o que vêm a ser os factos. A inteligência filosófica – esta é a tua, Abílio – aceita, da inteligência científica, os factos já determinados e tira deles as conclusões finais. Direi melhor: a inteligência filosófica extrai dos factos, o facto. (…) Ora, além destes dois tipos de inteligência, há outro, a meu ver superior, que é a inteligência crítica. Eu tenho a inteligência crítica… (…) A inteligência crítica é de dois tipos – instintivo e intelectual. A inteligência crítica e instintiva vê, sente, aponta as falhas das outras duas, mas não vai mais longe; indica o que está errado, como se o cheirasse, mas não passa disso. A inteligência crítica propriamente intelectual faz mais que isso: determina as falhas das outras duas inteligências, e depois de as determinar constrói, reelabora o argumento delas, restitui-o à verdade onde ela nunca esteve.”
Pelo que se transcreveu chegamos à conclusão que o Tio Porco – de que desconhecemos o motivo para tal baptismo, mas que certamente não foi originado por um certo pedantismo que lhe está associado e que percebemos ao longo das suas dissertações, por não ser esse o método normalmente seguido por Pessoa -, a quem se não consegue atribuir um papel definido, não é um investigador policial. E isso porque ele mesmo se exclui ao assumir ser possuidor de uma inteligência crítica. Ora, uma investigação policial é sempre originada num processo por resolver e a inteligência crítica actua como correctora das falhas das outras inteligências.
Esta teia que Pessoa cria em torno das coisas, nos seus esboços, deixa-nos com água na boca para imaginarmos o que seriam as suas novelas, se concluídas, pelo menos em termos de construção!
UM CASO PARA ESTUDO: “O ROUBO NA QUINTA DAS VINHAS”
Motivo de muitos estudos, a obra “O Roubo na Quinta das Vinhas” tem dividido muitos pessoanos convictos, tal o modo como está concebida e enquadrada.
Pessoa coloca em cena dois narradores, cada qual com a sua visão e o seu processo, em que cada um escuta o outro e assume (ou não) o conhecimento por ele transmitido. Há uma permanente desconfiança mútua e um analisar constante dos factos e das conclusões.
O diálogo fascinante entre o Dr. Quaresma e o Sr. Claro é, sem qualquer dúvida, um dos pontos altos da obra policiária de Pessoa e conduziu mesmo a um ensaio apresentado no Encontro Internacional do Centenário de Fernando Pessoa – Um Século de Pessoa, de autoria de Gersey Bergo Yahn, professora das Faculdades Metropolitanas de São Paulo, Brasil, sob o título “Um exercício sobre o dualismo: razão/fantasia em O Roubo na Quinta das Vinhas”.
A “luta” entre ambos vai recrudescendo de nível, até um ponto quase ensurdecedor, mesmo quando ambos estão em silêncio. É um ambiente em crescendo que termina de forma bombástica com a decifração do crime.
“Como uma bola de sabão, estoirou-me a alma, sem ruído, dentro de mim. Fiquei suspenso no vácuo interior (…) No longo espaço de curtos segundos tentei desesperadamente formar uma atitude, uma palavra, um gesto, qualquer coisa… não pude… e então compreendi violentamente quanto pode em nós, se sabem excitá-la, a consciência da culpabilidade”.
O final é devastador e deixa no ar a força que nos impede de fechar o livro, de mudar de assunto, quando o Dr. Quaresma olha para o Tejo em vez de olhar o seu opositor, o que faz com que este refira que “com cada fracção de segundo do meu silêncio a minha culpabilidade enchia o espaço”.
A autora do ensaio acima referido conclui: “Nada mais há a fazer. O essencial foi a decifração do enigma para um e, para o outro, é o avassalador sentimento de culpa e a enorme obrigação do homem para consigo mesmo”.
Fernando Pessoa, ele mesmo, policiarista por excelência!
domingo, 11 de dezembro de 2011
POLICIÁRIO 1064
M. CONSTANTINO, O MESTRE DA PRODUÇÃO
«O homem encontra no enigmático algo que lhe excita o espírito e lhe motiva a curiosidade.
Posto perante um mistério, todas as faculdades se lhe alertam e, atentas, se debruçam em torno do problema.
Sente prazer íntimo em seguir passo a passo todas as pistas até alcançar o objectivo.
Satisfaz-se ao conseguir rodear as dificuldades, tanto como vencer obstáculos que se apresentam intransponíveis.
E quanto mais a precisão dos factos não se permite que se vislumbre sombra de uma estrada, maior é o apego e o desenvolvimento do cérebro, maior é a satisfação da vitória.
Segundo Bergson, um problema que inspira atenção é uma representação duplicada de uma emoção, sendo ao mesmo tempo a curiosidade, o desejo e a alegria antecipada de o resolver. É o desafio posto que impele a inteligência diante das interrogações, vivifica, ou antes vitaliza os elementos intelectuais com os quais fará corpo até à solução.
A própria vida cifra-se em constante mistério, um enigma constante que a humanidade procura solucionar o melhor e mais rapidamente possível. O obscuro nunca nos desampara, desafia-nos.
De prazer espiritual que se sente em desvendar incógnitas, desvanecimento de sobressair, simples divertimento, tudo conduz a que os homens do povo na sua singeleza através de simples adivinhas que andam de boca em boca, os letrados com bem urdidos trabalhos, os sábios na esfera da humanidade, acorram ao seu cultivo e decifração.»
M. Constantino, “Manual da Enigmística Policiária”,
Edição da Associação Policiária Portuguesa, 1995
Não são necessárias muitas palavras para definir M Constantino, aquele que é, unanimemente considerado o melhor produtor de enigmas policiários.
Conhecemo-lo há longos anos em diversas facetas da sua vida policiária, não só como produtor excelente, mas igualmente como ensaísta e estudioso destes assuntos, com trabalhos importantes, felizmente muitos publicados graças à Associação Policiária Portuguesa (APP).
Numa altura em que o mestre anuncia a sua retirada – fortemente contestada pela esmagadora maioria dos “detectives”, desejosos de continuarem a tentar decifrar os seus enigmas – ouçamos o que dele dizem dois confrades absolutamente insuspeitos, tal a frontalidade com que sempre exercem os seus direitos à opinião:
CONSTANTINO – UM GRANDE NOME DO POLICIÁRIO PORTUGUÊS
M. Constantino (principal nome literário de Manuel Botas Constantino, já que também escreveu sob os pseudónimos de “Mário Campino” e “Zé da Vila”) é, incontestavelmente, um dos maiores nomes de sempre do Policiário português, nomeadamente no campo da produção.
Nascido em Almeirim em 21.04.25, terra onde ainda vive e ama devotadamente, passou pelo Ensino Secundário e Universitário, até se formar em Economia e Finanças, no I.S.E.F., entrando, profissionalmente, no Ministério das Finanças, onde desempenhou os cargos – não correspondendo a ordem às funções – de Jurista, Perito Gestor Tributário, Chefe de Repartições de Finanças, Professor de Direito Fiscal, Delegado do Ministério Público junto do Supremo Tribunal, Agente do Ministério Público de 1ª Instância, etc. .
Desempenhou, entre outros, os cargos de Vereador da Câmara Municipal de Almeirim e de Deputado Municipal, Presidente da Assembleia dos Bombeiros Voluntários, Director do CRIAL (Centro de Reabilitação Infantil de Almeirim) e Director do jornal “O Almeirinense”.
No Policiário iniciou-se em 1945, como solucionista e produtor, tendo pouco depois criado e dirigido Secções nas revistas “Altura”, “Palavras Cruzadas”, “Auditorium”, “Charadista” “Matuto” e “Tempos Livres”, e nos jornais “O Enigmista” e “O Almeirinense”.
Colaborou também activamente nas revistas especializadas “Selecções Mistério” – da qual foi um dos Coordenadores de edição – “XYZ Magazine” e “Célula Cinzenta”, esta editada pela Associação Policiária Portuguesa. Nesta, da qual foi um dos fundadores, integrou os Órgãos Directivos, ocupando, em diversos mandatos, os Cargos de Presidente da Assembleia-Geral, Presidente da Direcção e Presidente do Conselho Fiscal.
Excepcional produtor de problemas policiais, assinou, ao longo dos anos, muitos dos melhores destes enigmas entre nós publicados (30 dos quais se encontram compilados em livro), tendo-se, nesta modalidade, sagrado Campeão Nacional, para além de conquistado muitos outros certames.
Sempre sob os temas policiais e de mistério, a sua paixão de sempre, escreveu, ao longo de mais de 60 anos de intensa actividade – que felizmente ainda mantém – milhares de páginas de ensaios, manuais, biografias, crónicas, contos, etc. Destaquemos a “História da Narrativa Policiária”, a “Antologia Portuguesa de Contos Policiais” (ambas em 2 volumes), o “Grande Livro da Problemística Policiária”, o “Manual da Enigmística Policiária”, “Antologia dos 150 Anos da Literatura Policial (1841 a 1991), “Os Elementos Fundamentais na Narrativa Policiária Clássica”, etc. etc. Lastimavelmente, grande parte das suas obras de maior fôlego nunca conheceram divulgação publica, já que são demasiadas extensas para poderem serem publicadas nas (hoje poucas) Secções Policiais existentes, e por não haver entre nós (pensam os Editores) um publico interessado nestes temas suficientemente numeroso para justificar comercialmente a sua edição em livro....E assim se perde, ingloriamente, uma vasta obra.
Eis, necessariamente de forma muita resumida, o perfil biográfico de M. Constantino – um grande nome do policiário português.
Domingos Cabral (Inspector Aranha)
O AVÔ PALATÓ – UM HERÓI DE CONSTANTINO
Avô Palaló é, para mim, a personagem mais modelada da problemística policiária portuguesa. A sua grande riqueza psicológica é indissociável do facto de ter sido, assumidamente, inspirada no próprio avô materno do seu autor.
Cada situação que o Avô Palaló é chamado a resolver é a essência de uma novela que Constantino gostaria de ter escrito, sempre, mas que nunca teve espaço para publicar, nas secções policiárias em que colaborou. São momentos de vida, onde tomamos conhecimento com uma vasta galeria de personagens realmente ligadas ao autor (pais, familiares, amigos e empregados do avô) colocadas no autêntico espaço físico do Ribatejo de há quase 80 anos. Por isso, aí encontramos as grandes cheias do Tejo, as lezírias, os touros, os campinos, os trabalhos agrícolas das terras do seu avô – os rituais da vida rural da infância do menino Manuel! Infância que foi, notoriamente, muito moldada pela figura tutelar e patriarcal do avô, que o ajudou a criar, a formar e até lhe salvou a vida.
Para homenagear esse avô, M. Constantino criou esta personagem de investigador, que resolve todos os casos do dia -a – dia com uma técnica que podemos definir como intuitiva /dedutiva. Partindo de uma aguda intuição para observar e entender, rapidamente, o que o rodeia, Palaló vai construindo a solução do problema de uma maneira natural – revestindo o esqueleto da intuição com os pormenores da dedução.
Da brilhante obra de Mestre Constantino, os problemas de Palaló são, claramente, os meus preferidos, até pelo valor literário (e etnográfico) das suas descrições.
Cada situação que o Avô Palaló é chamado a resolver é a essência de uma novela que Constantino gostaria de ter escrito, sempre, mas que nunca teve espaço para publicar, nas secções policiárias em que colaborou. São momentos de vida, onde tomamos conhecimento com uma vasta galeria de personagens realmente ligadas ao autor (pais, familiares, amigos e empregados do avô) colocadas no autêntico espaço físico do Ribatejo de há quase 80 anos. Por isso, aí encontramos as grandes cheias do Tejo, as lezírias, os touros, os campinos, os trabalhos agrícolas das terras do seu avô – os rituais da vida rural da infância do menino Manuel! Infância que foi, notoriamente, muito moldada pela figura tutelar e patriarcal do avô, que o ajudou a criar, a formar e até lhe salvou a vida.
Para homenagear esse avô, M. Constantino criou esta personagem de investigador, que resolve todos os casos do dia -a – dia com uma técnica que podemos definir como intuitiva /dedutiva. Partindo de uma aguda intuição para observar e entender, rapidamente, o que o rodeia, Palaló vai construindo a solução do problema de uma maneira natural – revestindo o esqueleto da intuição com os pormenores da dedução.
Da brilhante obra de Mestre Constantino, os problemas de Palaló são, claramente, os meus preferidos, até pelo valor literário (e etnográfico) das suas descrições.
Gustavo Barosa (Zé)
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
POLICIÁRIO 1063
As memórias do Policiário passam, também, por algumas pessoas que, não tendo tido uma participação muito assídua nos torneios, por indisponibilidade pessoal ou por ausência de um espírito mais competitivo, nunca deixaram de acompanhar e participar, cada qual à sua maneira, naquilo que gostam, ou seja, no mundo Policiário.
Como muitas vezes temos referido, são muitas as formas de viver o Policiário e temos exemplos magníficos que podemos apontar. Um dos mais significativos é o de M. Lima, confrade do Porto, que mesmo depois de abandonar a decifração continuou a acompanhar todas as movimentações e a comparecer, quando possível, nos convívios; outro exemplo é o confrade L.S., de Coimbra, que não enjeita uma possibilidade de estar com os restantes confrades, nos eventos que levamos a cabo; ou Lima Rodrigues, durante muitos anos provedor da nossa secção e desde há muito afastado da problemística; ou mestre M. Constantino, que não entrando nas competições como decifrador, mantém uma actividade invejável como produtor de problemas e conviva por excelência, sempre que a vida pessoal permite.
São muitos os exemplos que demonstram que, uma vez policiarista, policiarista até ao fim! Era o que o nosso “Sete de Espadas” referia amiúde, como sendo “o bichinho do policiário”, que uma vez picando, jamais deixa de produzir o seu efeito. Será essa a razão para muitos dos nossos confrades regressarem ao nosso convívio muitos anos depois de terem dado como terminadas as suas participações!
Também a nossa homenageada de hoje pode ser englobada neste rol. Depois de uma vida intensa de participação nos torneios radiofónicos de Artur Varatojo, no celebérrimo Quinto Programa, sempre se manteve ligada à tribo policiaria, cultivando a literatura policial e escrevendo textos de inegável valor, sobre a temática policial, muitos deles publicados nestas nossas páginas.
Natércia Leite é a nossa homenageada de hoje, para que se mantenha a memória de uma lutadora contra a hipocrisia e o desmazelo, que ela odiava como ninguém.
HOMENAGEM A NATÉRCIA LEITE
Hoje, vamos homenagear uma figura importante do policiário, infelizmente um tanto esquecida, por não ter tido uma participação activa nas nossas competições, como decifradora, desde há muito.
Com uma vida literária intensa, quer como escritora de grande imaginação, com uma forte presença do mistério e grande poder de observação, quer na poesia, Natércia Leite foi sempre uma pessoa atormentada pela ausência de oportunidades, desaparecendo sem nunca ter podido cumprir o seu maior sonho: publicar um livro.
Natércia foi, podemos dizê-lo com certeza, uma das pioneiras do policiário, escrevendo muitos desafios e contos para o Quinto Programa, que Artur Varatojo manteve na rádio e onde se cruzou com muitos dos mais importantes vultos do policial, tais como, a título de exemplo, Sete de Espadas, M. Constantino, Lima Rodrigues, Domingos Cabral.
Na nossa secção, que Natércia seguia com a atenção que a sua doença permitia, muitos foram os textos que aqui viram a luz do dia e foi uma participante activa nos concursos de contos que promovemos, conquistando alguns prémios.
Mas, o prémio maior foi, sem dúvida, para todos os que tivemos a oportunidade de a conhecer nos convívios ou outros eventos.
O problema que hoje publicamos é um bom exemplo do seu modo de encarar o policiário, mas é um tanto diferente do que lhe era habitual, por ser curto. Natércia adorava escrever e a descrição dos personagens e dos ambientes era um exercício que raramente dispensava.
O caso de uma estranha morte foi publicado em 24 de Abril de 1945, na secção “Mistério e Aventura”, em “A Vida Mundial Ilustrada” e é o desafio que hoje vamos recordar, em memória desta Mulher que deixou uma marca indelével no Policiário.
A ESTRANHA MORTE DE FERNANDO FARIA
Desafio de Natércia Leite
O detective Santos foi chamado apressadamente a casa dos irmãos Faria, dois notáveis engenheiros. Aí, o criado, assustado, contou que um dos patrões há muito que fora para o banho e ainda não voltara. Como o outro patrão tivesse saído nesse intervalo de tempo, ele preferira recorrer à polícia.
Então, o detective Santos encaminhou-se para a sala de banho. A porta estava fechada. Mas como se tratava de uma fechadura vulgar, o detective utilizou uma das muitas chaves que sempre trazia consigo e conseguiu abri-la facilmente.
Lá dentro deparou-se-lhe um espectáculo bem triste. Entre os vapores de água jazia Fernando Faria. A sua cabeça estava tombada para o peito. E, na nuca, tinha uma horrível brecha.
O detective Santos pode constatar logo que a morte fora instantânea.
O detective fez um rápido esboço do que estava à vista.
Depois, voltou à outra sala para melhor interrogar o criado. Ainda assustado, ele confessou:
– O senhor Fernando discutiu furiosamente de manhã com o senhor Francisco. Depois, aí pelas onze horas, foi meter-se na casa de banho. O senhor Francisco saiu às onze e meia. Lá para o meio-dia e meia hora, como o senhor Fernando não aparecesse, fui bater à porta da casa de banho. Ele não respondeu. Ainda procurei ver pela fechadura mas a chave, do lado de dentro, não me deixou ver nada. Então, resolvi telefonar-lhe...
Passados momentos, regressou a casa Francisco Faria, o irmão do morto, interrogado logo pelo detective, ele declarou:
– Sim. Discuti com ele, de manhã, pois acusei-o de me ter roubado uns planos valiosos. Ele não mos devolveu, dizendo que não os tinha. Saí furioso. Mas, apesar de tudo, era bastante seu amigo.
O detective Santos olhou sorridente para os dois homens. Já tinha achado a “chave do caso”.
QUESTIONÁRIO
1º – O criado falou verdade? Porquê?
2º – Francisco Faria falou verdade? Porquê?
3º – Fernando Faria suicidou-se? Porquê?
4º – Qual deve ter sido a solução do detective Santos?
SOLUÇÃO
A ESTRANHA MORTE DE FERNANDO FARIA
Solução do enigma publicado na semana passada, pela autora Natércia Leite:
1º – As declarações do criado foram falsas. Se o patrão tivesse estado tanto tempo no banho, a água estaria fria e não emanaria ainda vapores. Também não podia a chave tê-lo impedido de espreitar, pois que não se encontrava lá chave alguma, dada a facilidade com que o detective Santos abriu a porta. Além disso, se o criado queria fazer supor que o patrão se suicidara, caía num erro porque a cabeça batendo contra a banheira, ao ponto de abrir uma profunda brecha na nuca, não viria tombar depois sobre o peito.
2º – Nada nos pode levar à conclusão que Fernando Faria não tenha falado verdade. Há apenas a contradição da hora de saída. Mas, dadas as outras mentiras do criado, é fácil supor que ele tivesse insinuado uma falsa hora de saída de Francisco Faria, com intenção mais do que duvidosa...
3º – Fernando Faria não se suicidou. A ferida profunda que apresentava na nuca, não poderia ser feita por ele próprio. Além disso, se se tivesse suicidado, o instrumento de que se servira devia estar bem à vista.
4º – Se Fernando Faria não se suicidou, havia um criminoso. E o criado devia ter sido o criado, porque prestara propositadamente falsas declarações. E de facto, preso, ele confessou o crime. Roubara os documentos e com medo que o patrão descobrisse, porque já desconfiava dele, aproveitou a zanga havida de manhã, e matou, para fazer cair as culpas sobre Fernando Faria. Mas, ao mesmo tempo, receoso de possíveis consequências, quis também fazer acreditar num suicídio. Porém, o vapor de água e a chave hipotética traíram-no irremediavelmente...
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
POLICIÁRIO 1062
Na continuação do trabalho que foi publicado no ano de 2006 no Jornal de Letras, a segunda parte refere-se mais à literatura policial portuguesa e ao modo como por cá se seguiam (ou não) as tendências dominantes.
Para quase todas as pessoas que se interessam por estas coisas do romance policial, não deixa de ser uma surpresa que um país tão limitado, tão curto de ideias, tenha podido manter uma actividade invejável e, provavelmente única, pelo menos a nível europeu.
Um elevadíssimo número de autores, quase sempre assinando sob pseudónimo anglo-saxónico ou francês, ou inclusivamente um mesmo autor que usou dezenas de pseudónimos, muitos ainda hoje não inteiramente reconhecidos e comprovados, ajudou a construir uma história bonita sobre a literatura policial portuguesa, a merecer uma justíssima homenagem de todos os cultores deste tipo literário.
Hoje mesmo, a caminho de completarmos duas décadas da existência deste espaço no PÚBLICO, o que ocorrerá já no próximo dia 1 de Julho de 2012, não podemos esquecer a importância da literatura policial na composição do ADN de todos os confrades que nos têm acompanhado e continuarão certamente nesta permanente aventura.
LITERATURA POLICIAL – PARTE II
Por cá, o Policial segue as tendências, a alguma distância, claro. Colecções como a Vampiro, Xis, Romano Torres e outras, traziam tudo o que de melhor se publicava no mundo, criando em muitos leitores o desejo de escreverem os seus romances. O policial português é rico naquilo que se conhece, já que muitos autores foram obrigados a optar por pseudónimos para poderem publicar as suas obras. Alguns são hoje conhecidos, outros, possivelmente nunca o serão. Um exemplo bem flagrante é o de Mário Domingues, historiador, jornalista, editor e tradutor, que usou qualquer coisa como cerca de 150 pseudónimos, a maioria dos quais desconhecidos hoje em dia, o que o transformou no português que mais romances escreveu e editou!
Aquele que é considerado o pai do romance policial português é Francisco Leite Barros, nascido em Lisboa no ano de 1841 e falecido em 1886. A coincidência de ter nascido no mesmo ano em que Pöe publicava a primeira novela policial, parece ter influenciado este autor, que escreveu “O Incendiário da Patriarcal”, “O Crime de Mata Lobos”, “O Crime do Corregedor” e “As Aventuras do Homem Pardo”.
Nome fundamental do policial português é o de António Andrade Albuquerque, que assina as suas obras com o pseudónimo de Dick Haskins e que é o autor português mais editado no estrangeiro, com obras traduzidas em dezenas de países e passadas para o cinema.
Também Reinaldo Ferreira merece destaque com os pseudónimos Repórter X e Repórter Kiá. Com uma obra extensa, deixou marcas no policial português, nas décadas de 20 e 30, até ao seu falecimento em 1935.
Roussado Pinto é outro autor importante, não só pela extensa lista de cerca de 75 pseudónimos que usou até à sua morte, mas também pelo modo como organizou antologias policiais de boa qualidade. Ross Pynn é o seu pseudónimo mais conhecido.
Outros nomes varreram o panorama policial, de que destacamos:
Adolfo Coelho com o pseudónimo J. Stew, nos anos 20; Américo Faria como Adam Fulton e Ans. Shouldmarke; António Carlos Pereira da Silva, como Simon Ganett ou Barney Kilbane; Dinis Machado, como Dennis Mc Shade, tendo como personagem Peter Maynard; Fernando Luso Soares com os seus personagens Inspector Boaventura e Dr. Castro; Fernando Pessoa que criou os personagens Dr. Abílio Fernandes Quaresma, Tio Porco e Chefe Guedes; Francisco Valério Almeida Azevedo, com o pseudónimo de W. Strong Ross e personagem Inspector Ryan; Gentil Marques, com os pseudónimos de Charles Berry, James Stron (criador de Rangú), Marcel Damar, Herbert Gibbons; D. G. Richter e muitos outros; Guedes de Amorim, como Edgar Powel; José da Natividade Gaspar, como Sam Brown ou J. Fergusson Knight; Luís Campos, como Frank Gold; Mariália Marques, como John S. Falk, Hugh Mc Benett ou Ossman Matzyk; Mascarenhas Barreto, como Van Der Bart.
Na moderna Literatura Policial Portuguesa vivem-se momentos de alguma acalmia. Algumas felizes incursões de autores consagrados, como José Cardoso Pires em “Balada da Praia dos Cães”, Agustina Bessa Luís em “Aquário e Sagitário”, Clara Pinto Correia em “Adeus Princesa” ou Francisco José Viegas, em “As Duas Águas do Mar”, não conseguem agitar o meio, que continua placidamente a viver de alguns novos valores como Maria do Céu Carvalho, Manuel Grilo, Miguel Miranda, Ana Teresa Pereira ou Henrique Nicolau.
Sem conseguir afirmar-se como uma “escola”, a verdade é que o Policial Português sempre conseguiu encontrar o seu espaço, com recurso a pseudónimos estrangeiros ou não.
E mesmo fora do movimento editorial, há mais de catorze anos que milhares de pessoas escrevem sobre o policial, desafios e suas propostas de resolução, nas páginas da edição dominical do Público, que vem funcionando como um verdadeiro “ponto de encontro” dos amantes do Policial.
Luis Pessoa
In Jornal de Letras, 2006
CAMPEONATO NACIONAL E TAÇA DE PORTUGAL
SOLUÇÃO DA PROVA N.º 10 – PARTE II
“O IATE MISTERIOSO”, Original de MALEMPREGADO
A alínea certa é a C - O Alberto pode estar envolvido naquele caso de droga, mas ela não veio do iate.
O iate estava a montante do local do Alberto, para o lado da Ponte Vasco da Gama e o texto refere que o iate estava ancorado, tendo começado a mover-se na direcção da foz do rio, ou seja, em sentido contrário. Como ele entra imediatamente em movimento, nesse sentido, a maré estava a encher, pois a âncora está sempre colocada na proa do navio, ou seja, na parte da frente. Só assim o iate pode levantar a âncora e iniciar de imediato o movimento para a foz do rio.
Portanto, se a maré estava a encher, uma carga largada do iate nunca poderia deslocar-se contra a maré e só dessa forma poderia ir ter com o Alberto.
Em conclusão, o Alberto poderia estar envolvido na tramóia e pelos seus antecedentes, certamente que estaria, mas aquela carga não partiu do iate, até porque a descrição revela que a droga estava na água há muito pouco tempo.
OS NOSSOS CAMPEÕES
Com a publicação da solução oficial do último desafio desta época, resta-nos saber quem serão os “detectives” que vão conquistar os títulos em disputa, algo que a breve prazo iremos divulgar.
Como sempre acontece, será no nosso blogue “Crime Público”, em http://blogs.publico.pt/policiario que a divulgação será feita em primeira mão.
A NOVA ÉPOCA
Todos os anos por esta altura, com as competições encerradas, ou em vias de o ficarem, é o momento de fazermos a previsão e lançarmos as bases para o que será a época competitiva do ano que se avizinha.
Este ano não será diferente e por isso convidamos desde já os nossos confrades a darem-nos as sugestões e propostas para a melhoria da nossa página.
Também lançamos o repto aos “detectives” produtores de enigmas policiários, para que comecem a delinear os seus problemas, quer os de escolha múltipla, quer os “tradicionais”, para que o próximo ano possa começar sem grandes sobressaltos.
Logo que seja possível, publicaremos os regulamentos que nos vão reger, que não serão muito diversos daqueles que têm vigorado
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
A RESPOSTA DE M. CONSTANTINO
O confrade e Mestre M. Constantino endereçou o texto que segue, como resposta às críticas a que o seu último problema foi sujeito.Tratando-se de um texto que revela alguma mágoa do seu autor, não queremos deixar de assumir a quota parte de culpas que nos cabem, por não termos feito a devida revisão do texto.
Uma palavra final para o Mestre, que aqui vem dar por terminada sua produção, para lhe dizermos que isso apenas é por nós levado à conta de desabafo e de revolta, mas que jamais aceitaremos que assim seja.
Na próxima época, cá esperamos mais um desafio com a assinatura de qualidade de M. Constantino!
E não admitimos, sequer, um "talvez"!
"Caros confrades
Não conheço o teor das críticas ou seus autores sobre o problema último -- o último produzido por M.C., ainda que não faltem ideias -- publicado no "Público Policiário", "Os Enigmas da Tribo Desaparecida", pois não tenho computador por falta de vista. Vejo pessimamente e só leio através de uma potente lente. Do que sei -- mulheres, habitantes, estrela, esclareço o seguinte:
"Aurora, recusou a alegre Tono; e Rosa, a Rubi, ficou com a pequena e gentil Garnizé".
No original que escrevi consta:
"Aurora recusou a alegre Tono e Rosa, a Rubi, ficou com a pequena e gentil Garnisé".
Na Cópia que pedi que me fizessem foi incluído um ponto e vírgula depois de Tono e assim enviado ao P.P. . Tal não parece invalidar a solução, já que logo A SEGUIR SE JUNTA "a faladora Lúcia, a Gralha, amiga da Rosa e Alice" que "ocupam a palhota disponível! Nunca Ana, incompatível com a faladora Lúcia e porque Ana, a Muda, FEZ COMPANHIA A MARTA, que não é nenhuma daquelas três, podia juntar-se a Rosa e companhia.
É claro que não se pode exigir ao solucionista analisar o português do autor, simplesmente a solução. Porém, peço-vos um pouco de exercício extra. Em bom português é possível detectar que o ponto e vírgula só pode aparecer por lapso, porque respeitando a sua inclusão não seria necessário o "e" que se segue, dado que este É UMA VOGAL DE LIGAÇÃO DE DUAS FRASES OU CONSTITUINTES DE UMA FRASE DE NATUREZA SEMELHANTE. Melhor, se o autor quisesse colocar ponto e vírgula, dispensava o "e", assim:
"Aurora recusou a alegre Tono; Rosa, a Rubi, ficou com a alegre e gentil Garnisé."
Só dispensando o ponto e vírgula a frase ficará correcta com o "e": "Aurora recusou a alegre Tono e Rosa...", etc.
Claro que isto pode parecer desculpa, não o é; é português correcto. Adiante.
Quanto ao número de habitantes.
Fala-se em "duas dúzias de viventes" apenas na introdução ao tema, o problema a decifrar começa com a construção da aldeia na estrela de seis pontas. Depois há que separar os tempos. 1º após a construção existiam 26 habitantes: conhecemos a colocação de alguns, os outros "distribuídos conforme as idades". 2º há um período de 13 anos(do nascimento dos gémeos à sua iniciação) em que se descobre um mentiroso crónico, se mata um urso, Sibila foi expulsa e reconstroe-se uma cabana, etc., neste período não se diz quantos eram os habitantes nem quem eram, está fora do problema questioná-lo. No 3º período, que realmente interessa, "o tempo decorreu até à iniciação" dos gémeos e reajustamento habitacional. Aqui sim, sabemos os nomes, os ápodos, o que faziam e, se bem contar 25 há-de achar!
O caso da estrela estudado pelo matemático russo Yakov Perelwan, fala-se em "Magic Star". Encontram-se doze soluções válidas para a inclusão das pontas da estrela com o nº 26. Facilitou o autor com indicação de alguns números...
Quanto á situação geográfica da aldeia, não oferece dúvidas desde que sabemos o nascente e o poente... devo continuar?
Afinal parece que o problema é bom já que deu origem a críticas!..
Quando escrevo interessa-me, tão só, escoar o espírito criativo e, se possível, como no problema em causa, apresentar situações diferentes das habituais -- estamos longe de "o mordomo é o assassino" -- e nunca para obter um qualquer prémio, de que prescindo com facilidade e sem comentários, recebendo no entanto o que por direito me couber. Para mim escrever é viver. É um prazer e não um negócio. Aliás trabalhei muito e no que gostava, vivi a vida possível com gosto, razão bastante para no limiar dos 87 anos, a minha riqueza só possa ser contada em número de anos.
Cordiais saudações
Muita saúde
Bons problemas (não do Constantino)
M. Constantino"
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