domingo, 25 de janeiro de 2015

POLICIÁRIO 1225


[Transcrição da secção n.º 1225 publicada 

hoje no jornal PÚBLICO]


ÚLTIMO CAPÍTULO PARA O CONFRADE RIP KIRBY

Faleceu RIP KIRBY.

A notícia chegou ao final do passado dia 20, pela mão do confrade ZÉ, que anunciou laconicamente “Morreu o Rip…”.

É difícil falarmos de alguém que teve um papel importante no Policiário, onde militou durante décadas, dando o melhor de si mesmo a um passatempo que amava e cultivava de forma muito pessoal, principalmente depois de terminar a sua vida laboral e dispor de muito mais tempo.
Conhecemos o Luciano nos tempos gloriosos do Mundo de Aventuras e do Sete de Espadas lá pelos anos 70 do século XX, mas a sua trajectória de detective vinha lá mais de longe e a sua maneira de encarar o Policiário já nos chamava a atenção. Natural de Olhão e residente no Barreiro, foi parar ao Brasil, onde se manteve vários anos, sempre ligado ao Policiário. Foi lá que se sagrou campeão nacional, nesta nossa secção, na época 2008/2009, provavelmente a sua maior conquista em competições policiárias e foi semi-finalista da Taça de Portugal em 2010.
Produtor exímio e prolixo, colaborou sempre com enigmas bem elaborados, que genericamente mereciam elogios dos “detectives”.
Como conviva, estava sempre presente nos eventos que o Policiário produzia, organizando durante anos o Convívio do Barreiro, também com a colaboração da Tertúlia Policiária Valtejo, a que pertencia e de que era um dos principais dinamizadores, com o Inspector Moka. Foi, aliás, no âmbito da TPV que co-orientou um espaço policiário num jornal regional.
Desapareceu, fisicamente, mais um dos “monstros sagrados” do Policiário, ficando a memória de um exemplar “detective”, um conviva excelente, um confrade de mão cheia, que deixa mais um vazio difícil de colmatar.

Deixemos, em sua memória, um dos seus problemas, publicado nestas páginas no dia 16 de Fevereiro de 2003:



UMA AVENTURA DE SHERLOCKÃO
Autor: Rip Kirby

Na grande clareira encontravam-se reunidos, em assembleia-geral ordinária, todos os animais que habitavam a floresta.
De acordo com o que consegui entender, no meio da grande vozearia que ali reinava, aquela assembleia havia sido convocada a pedido do clã dos cervídeos por ter sido raptado na véspera um filhote de um casal deste clã que reclamava justiça.
A solução não parecia fácil. O grupo dos poderosos, de que faziam parte o leão, a pantera, o jacaré, a águia, etc., etc., eram de opinião que não valia a pena perderem tempo com coisa tão insignificante. A águia dizia até com certo desdém: “Mesmo assim, quem quereria um miserável filhote de gamo?”
No grupo dos mais fracos dizia-se que uma vida é sempre uma vida e que tudo devia ser feito para a salvar.
Por fim, depois de muitos grunhidos, urros, balidos, zurros, latidos, miados, guinchos, etc., chegaram a acordo e Sherlockão foi encarregado de encontrar o desaparecido e apresentar um relatório no dia seguinte, para o que ficava desde já convocada nova assembleia.
Entretanto, eu fui destacado para fazer a reportagem de um outro evento, pelo que não me foi possível assistir a esta assembleia. E teria ficado sem saber o seu resultado, se não fosse a possibilidade, que me foi dada por uma arara azul que secretariara a assembleia, de consultar a acta dessa magna reunião.
Foi pelo que ficou exarado na referida acta que eu tive conhecimento do relatório do Sherlockão e de outros pormenores que passarei a referir.
Dizia o relatório do Sherlockão:
«Havia sido encontrado o cadáver de um filhote de gamo já bastante crescido a cerca de 3 quilómetros da clareira num terreno arenoso junto a um rio. Não haviam árvores por perto e no chão, bastante húmido, não existiam pegadas.
Observara o corpo e verificara, ao tocar-lhe, que todas as suas costelas deviam estar fracturadas bem como alguns outros ossos.
Num dos lados do dorso viam-se dois buracos profundos apresentando-se o que ficava mais próximo da cabeça rasgado na direcção desta.
No lado contrário do dorso eram seis os buracos que se viam, estando os três mais próximos da cabeça também rasgados na direcção desta.
Sherlockão terminava o relatório referindo aqueles em quem recaíam as suas suspeitas. Eram eles: o leão, o mabeco e a águia.
Chamado a depor o leão disse:
– Não fui eu o autor desse rapto. No dia em que isso aconteceu andava eu caçando em lugares muito distantes, como pode testemunhar ali o elefante, presidente desta assembleia, com quem me cruzei algumas vezes.
O presidente balançou a tromba várias vezes em sinal de assentimento.
Por sua vez, o mabeco afirmou:
– De facto, vi nesse dia a vítima andar passeando na orla da floresta e confesso que me apeteceu caçá-la. Como me encontrava sozinho, não o tentei, mas fui em busca dos meus irmãos e quando voltamos já não a vi.
Foi depois chamada a águia para fazer o seu depoimento. Aproximou-se coxeando aparatosamente e declarou:
– Eu nunca podia ter levado a efeito esse rapto. Precisamente no dia que isso aconteceu fui alvejada por um humano que me atingiu, inutilizando-me a perna direita.
Sherlockão aproximou-se e verificou que efectivamente a águia tinha um ferimento bastante grande na pata referida, que lhe cortara os tendões, não podendo por isso movimentar os dedos.
No vulgar linguajar dos humanos teria sido dito que a águia fora atingida por uma bala.
Seguiram-se depois as deliberações e chegou-se a uma conclusão. Mas essa, eu não vou revelar. Deixo para os meus amigos a tarefa de tentarem desvendar este mistério.
Quero apenas acrescentar que muitas das palavras aqui usadas são a tradução daquilo que ouvi ou li, já que certamente os meus amigos não iriam entender a linguagem original.


NO PRÓXIMO DOMINGO: INÍCIO DAS COMPETIÇÕES DE 2015

Em jeito de “aviso à navegação”, recordamos que no próximo domingo publicaremos o primeiro desafio das competições de 2015, que será o tiro de partida para mais uma maratona que só terminará lá para o mês de Novembro.
Desejamos a todos os confrades que se tornem também “detectives” e venham experimentar o que é competição a sério, mas sempre honesta e com total respeito e camaradagem.

Gozem esta última semana de férias, porque a competição vai começar e não vai dar tréguas!

JARTURICE 024

           
                                     PROBLEMAS POLICIAIS – 27 - #024

 # 4163 – 08.05.1954

      
          O carro da Polícia atravessou velozmente as ruas de Chicago, desertas àquela hora da noite.
         - Chegaram demasiado tarde. – disse o homem quando a Polícia apareceu.
         - Que se passou? – inquiriu Fordney sem mais delongas.
         Everett Moore, caixa da «Imperial Ice Cream Company», prosseguiu:
         - Vim fazer serão, esta noite, porque havia muito dinheiro em caixa e precisava de o conferir e fazer a folha de receita. Por volta da uma hora, ouvi um ruído de passos, alguém subia a escada. Como só eu estava a fazer serão, no escritório, pensei logo que se tratava de um gatuno. Apaguei as luzes, apressadamente, e corri, em bicos de pés, a esconder-me no gabinete anexo à Tesouraria. O escritório ficou imerso na escuridão. Os passos aproximaram-se e alguém entrou na Tesouraria. Com uma lanterna de bolso. Aproveitando o ruído feito por um «eléctrico» que nesse momento passava na rua, liguei para a Polícia e sussurrei: «Fala da «Imperial Ice Cream Company» South Birc, 13. Está aqui um gatuno. Socorro, depressa!». Desliguei e aproximei-me da porta de comunicação com a Tesouraria, que deixara entreaberta. A lanterna estava sobre a minha secretária e um homem mascarado, com uma pistola ao alcance da mão, metia o dinheiro num saco, apressadamente. Era um «tipo» fracote, mas não podia atirar-me a ele, pois estava desarmado. O gatuno acabou de meter o dinheiro no saco e fugiu por onde viera. Esperei que ele saísse e depois acendi as luzes para aguardar os senhores.
         - Que número marcou ao telefone? – perguntou Fordney.
         - O número da Polícia – 1 8 5 2 9 0.
         O professor examinou um saco de papel que retirara do cesto dos papéis e perguntou:
         - Saiu do escritório depois de começar o serão?
         - Saí às onze horas, para ir tomar um café. Mas pouco me demorei. Tinha imenso que fazer.
         - A que horas, começou o serão?
         - Às 8 e 30, logo depois do jantar.
         - E onde jantou?
         - Num restaurante, aqui mesmo na rua.
         - Vá buscar o chapéu e o sobretudo! – ordenou Fordney. Precisamos de descobrir quem é o seu cúmplice. Você mentiu!

         Por que afirmou Fordney que Moore mentira? Que facto o levou à conclusão de que o caixa era cúmplice do roubo? 

 (Divulgaremos amanhã, a solução oficial deste caso)

               * * * * *

Solução do problema # 023
Diário Popular # 4150 – 24.04.1954

         A existência de sangue debaixo do livro de astrologia, prova que Prasilov fora assassinado. Se fosse ele que tivesse disparado o tiro que lhe provocou morte instantânea, não poderia ter havido sangue sob o livro.
O assassino, (um criado do astrólogo) possuía uma chave do gabinete de Prasilov. Depois de matar o patrão, tirou-lhe do bolso a chave e atirou-a para o chão para despistar a polícia.

                                                                                   
Jarturice-024 (Divulgada em 25.Janeiro.2015)



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sábado, 24 de janeiro de 2015

JARTURICE 023

     
                                              PROBLEMAS POLICIAIS – 26 - #023

                                                                           
# 4150 – 24.04.1954
                  
         Prasilov, famoso astrólogo polaco, jazia morto no soalho do seu gabinete de observação, na antiga torre de mármore de Cornwall, na Inglaterra.
         O astrólogo fora atingido com um tiro na têmpora direita, e a sua cabeça repousava sobre um velho livro de astrologia que se encontrava aberto na página que continha o horóscopo do próprio Prasilov. A morte fora instantânea. A pouca distância via-se, também no chão, um revólver de fabrico estrangeiro.
         Fordney e o Inspector-Chefe Tarwill chegaram, por fim, ao topo da interminável escadaria de pedra.
         - A porta estava fechada, Chefe. – informou o agente Stiblle. – Tivemos de a arrombar.
         O inspector pegou numa chave que se encontrava junto do cadáver e olhou, inquisitivamente, para Stibile.
         - Mexeram nalguma coisa?
         Em nada, Chefe. Está tudo como o encontrámos.
         Teria Prasilov fechado a porta por dentro e atirado a chave para o chão para confundir ou ludibriar a polícia? Teria a chave saltado da fechadura quando a polícia arrombou a porta ou haveria qualquer outra explicação para o facto? O Professor dava tratos à imaginação.
         Removido o corpo, Fordney pegou no velho e pesado livro de astrologia e leu, atentamente, o horóscopo do sábio. No ponto onde repousava a cabeça do morto, havia uma pequena mancha de sangue.
         Espreitando por cima do ombro do Professor, Tarwill leu, também, o horóscopo que predizia a morte do astrólogo por suicídio!
         - Esta coincidência parece-me estranha – observou o Inspector-Chefe. – Mas… que poderia ter sido isto senão um suicídio?
         - Talvez tenha sido homicídio – respondeu Fordney.
         Dez minutos depois, Tarwill dizia, um tanto impaciente:
         - Quando se resolve a vir-se embora, Professor? Já não há coisa alguma que valha a pena examinar.
         Fordney meteu o livro de astrologia debaixo do braço e circunvagou um último olhar pela sala. No sítio onde estivera o livro havia uma mancha de sangue a atestar a tragédia.
         - Vamos embora. – disse Fordney. Está provado que Prasilov não se suicidou.

         Qual foi o indício que levou Fordney à conclusão de que o astrólogo havia sido assassinado

 (Divulgaremos amanhã, a solução oficial deste caso)

*   *   *   *   *

Solução do problema # 022
(Diário Popular # 4143 – 17.04.1954)

Fordney não acreditou em Mantell porque este dissera que a porta do camarim estava fechada (enquanto ele, Mantell, se caracterizava ao espelho do toucador, fronteiro à porta do camarim) e que não vira entrar Hooper, só dando pela sua presença quando fora disparado o tiro. Ora, se Mantell estava em frente do espelho, fronteiro à porta do camarim, não poderia ter deixado de ver entrar Hooper.

                                                                                      
 Jarturice-023 (Divulgada em 24.Janeiro.2015)



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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

JARTURICE 022

     
                                           PROBLEMAS POLICIAIS – 25 - # 022
                                                         
                                                 # 4143 – 17.04.1954

        
  
       Ao entrar no camarim de Hilary Mantell, o famoso actor inglês, o professor Fordney lançou um olhar observador ao espelho estilhaçado do toucador, fronteiro à porta do camarim, e passou a examinar o cadáver de Gerald Hooper, findo o que resolveu dedicar a sua atenção à arma que se encontrava sobre o tapete e a um pesado boião de creme que estava a um canto do camarim, também partido.
         Dois guardas permaneciam à porta do camarim que se fechou, logo que entraram o Professor, o Inspector Kelley e o Doutor Lyman.
         Enquanto o médico procedia ao exame do cadáver, Kelley interrogava Mantell que passeava nervosamente pelo camarim.
         - Que azar o meu! – dizia o actor. – Não consigo compreender por que razão, aquele desgraçado me queria matar. É certo que ele era um bom actor e que o papel para que fui escolhido podia muito bem ser desempenhado por ele.
Mas que culpa tenho eu de que os empresários me tenham chamado a mim e não a ele? Eu não podia recusar-me a desempenhar o papel só para lhe não ferir as susceptibilidades, não lhe parece?
         - Claro, claro. - secundou Kalley – Continue. Como se passaram as coisas?
         - Bem, a porta do camarim estava fechada e eu estava sentado em frente do espelho a caracterizar-me, para entrar em cena. De súbito, senti uma bala zunir-me aos ouvidos. Dei um salto e foi então que vi o Hooper atrás de mim. Atirei-me a ele antes que tivesse tempo de disparar outro tiro e, durante a luta, a arma caiu para o chão. Corri a apoderar-me dela, claro. Entretanto, Hooper levantara-se e, pegando naquele pesado boião de creme, fez menção de mo atirar à cabeça. Num movimento instintivo, aterrado, premi o gatilho da arma e matei-o. Fi-lo em legítima defesa, como vêem! Era uma questão de matar ou morrer! Se ele conseguisse acertar-me com o boião, eu perdia os sentidos e ele depois liquidava-me. Matei em legítima defesa, não lhes parece?
         Fordney, que ouvira a história sem dizer palavra, comentou:
         - Se as coisas se tivessem passado como você diz, é possível que conseguisse convencer o tribunal de que agiu em legítima defesa. Mas assim, não há a mínima esperança!
        
         Porque razão não acreditou Fordney em Mantell?

                    Divulgaremos amanhã, a solução oficial deste caso

*   *   *   *   *


Solução do problema # 21
(Diário Popular # 4136 – 10.04.1954)

       O detective Ronson dissera a Fordney que o cadáver tinha estado dentro de água pelo menos durante quatro dias. Contudo, o corpo que haviam examinado no Necrotério, tinha a cabeça coberta de sangue. É evidente que, se tivesse estado dentro de água durante alguns dias, a água teria removido o sangue.


    Jarturice-022 (Divulgada em 23.Janeiro.2015)




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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

JARTURICE 021

        
                                 PROBLEMAS POLICIAIS – 24 - #21
                                                                                   




                                                # 4136 – 10.04.1954

       
         - Já sabia que o cadáver tinha permanecido dentro de água por alguns dias – disse o detective Ronson, enquanto seguia com o Professor Fordnay para a Morgue, onde ia ser feita a identificação formal do morto.
         - Encontrámo-lo no ponto que o senhor designou como provável – proseguiu ele. – Que espectáculo desagradável! Estava deitado de bruços na lama da margem do rio, com uma ferida na nuca, coberta de sangue. O fato estava encharcado e desbotado como acontece depois de um longo período de imersão. E o rosto! Há-de vê-lo com os seus próprios olhos! Permaneceu dentro de água durante quatro dias, pelo menos. Suponho que seja Butterworth pela descrição que obtive, mas nada apurei pelos documentos encontrados com o cadáver.
         Fordney lançou um olhar inquiridor ao detective, mas nada disse. O táxi parou à porta da Morgue. Na sala de entrada, encontraram uma lacrimosa senhora Butterworth acompanhada pelo irmão. Depois de trocarem algumas palavras com eles, o médico-legista, o Professor e o detective encaminharam-se para a câmara frigorífica onde fora colocado o cadáver, com a cabeça coberta de sangue.
         A senhora Butterworth deitou um olhar relutante ao corpo e gritou:
         - Esse homem não é o Charles!  
         E desmaiou. O irmão confirmou a declaração dela. O cadáver não era, de facto, o Charles Butterworth.
                                                                                  *
         - Embora, neste caso, seja compreensível um erro de identificação, surpreendeu-me no entanto a sua falta de observação, Ronson – disse o Professor, mais tarde. – Aquele cadáver não podia ter estado quatro dias dentro de água.
 
         Por que fez Fordney tal afirmação? 

 (Divulgaremos amanhã, a solução oficial deste caso)

*   *   *   *   *



Solução do problema # 20
(Diário Popular # 4129 – 03.04.1954)

        Embora a caligrafia e a ortografia das cartas fossem péssimas, a pontuação era impecável. Fordney concluiu, portanto, que não fora Morrel quem as redigira. Limitara-se a copiá-las de uma minuta feita por uma pessoa mais culta que, embora tivesse, propositadamente, cometido erros ortográficos, não conseguira eximir-se ao hábito de pontuar correctamente. 



 Jarturice-021 (Divulgada em 22.Janeiro.2015)

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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

JARTURICE 020

         
                PROBLEMAS POLICIAIS – 23 - # 020

               
                                                                        
 # 4129 – 03.04.1954

        

        - Compreendo agora, Professor, que fiz mal em pagar o dinheiro pedido nas duas primeiras cartas que o chantagista me enviou. Mas a verdade é que se o não tivesse pago…
         Anthony Lane encolheu os ombros, num gesto de abatimento.
         - É verdade que pratiquei o roubo de que o chantagista me acusa – mas isso foi há já vinte e cinco anos. Depois disso, não só paguei todo o dinheiro roubado, como me regenerei. Vim para este estado e comecei vida nova. À custa de muito trabalho, consegui juntar uns milhares de dólares e alcançar posição de destaque no meu grémio. Gostaria de conseguir um lugar no Senado mas se o meu pecado velho for revelado, está arruinada a minha carreira política. O chantagista sabe-o bem e por isso não cessa de me perseguir. Quer fazer o favor de me ajudar, Professor Fordney? 
         - Pode mostrar-me as cartas que recebeu do chantagista? – perguntou  o Professor.
         - Com certeza. – respondeu Lane.
         Foi buscar as cartas e entregou-as ao Professor que as examinou atentamente, notando que haviam sido escritas por um homem quase analfabeto. A escrita era tortuosa, letras de mau traço e a ortografia deplorável. A última carta do chantagista era assim concebida:
         Lane:
         Trata de arrangar mais vinte mile dólares, inté cuartafeira que vem.
         Senão…
         E, se tems o discaramento de te apreçentares às ileissões pró Çenado, toda a gente ficará a çaber o gatuno que tu és!
                                                                           Atenciosamente,
                                                                           SABICHÃO»

         Três dias depois, o «Sabichão», aliás o cadastrado Ed Morrel, caía nas mãos de Fordney.
         O criminologista recostou-se na sua cadeira e disse:
         - Depois de compararmos a letra que está na tua ficha com a destas cartas de chantagem, ficou provado que foste tu quem as escreveu. Que dizes a isto? – O outro tomou um ar de desafio.
- Fui eu que escrevi essas cartas, sim! E depois? Que mal há nisso? Estamos num país livre, não estamos? Não quero que um velho gatuno me represent5e no Senado e acho que tenho o direito de lhe dizer. Há alguma lei que mo proíba? Quanto ao pedido da «massa» também não é crime dizer a um «tipo» que «escorra» com vinte mil dólares. Eu nas cartas não faço ameaça nenhuma. Se ele me quiser dar as «coroas», ninguém tem nada com isso. É comigo e com ele. Não é assim?
Fordney não respondeu. Limitou-se a perguntar:
- Quem é o teu cúmplice, Morrel?
- Eu cá não tenho cúmplices! Este negócio é só meu.
- Estás a mentir! – afirmou o Professor – Foste tu quem escreveu estas cartas, mas copiaste-as. Quem é que te deu o rascunho?  

Porque razão afirmava Fordney que Morrel tinha um cúmplice? 

   (Divulgaremos amanhã, a solução oficial deste caso)

* * *


Solução do problema # 019
(Diário Popular # 4122 – 27.03.1954)

                 Fordney encontrara sem um só vinco a carta que o secretário dizia ter aberto e levado ao patrão. Ora, como o papel era de 7,5 por 11 polegadas, Fordney compreendeu que, se tivesse chegado pelo correio, viria fatalmente dobrada.

  Jarturice-020 (Divulgada em 21.Janeiro.2015)



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ÚLTIMO CAPÍTULO PARA O RIP KIRBY

ÚLTIMO CAPÍTULO PARA O CONFRADE RIP KIRBY

Faleceu o RIP KIRBY.

A notícia chegou ao final do passado dia 20, pela mão do confrade ZÉ, que anunciou laconicamente “Morreu o Rip…”.

É difícil falarmos de alguém que teve um papel importante no Policiário, onde militou durante décadas, dando o melhor de si mesmo a um passatempo que amava e cultivava de forma muito pessoal, principalmente depois de terminar a sua vida laboral e dispor de muito mais tempo.
Conhecemos o Luciano nos tempos gloriosos do Mundo de Aventuras e do Sete de Espadas lá pelos anos 70 do século XX, mas a sua trajectória de detective vinha lá mais de longe e a sua maneira de encarar o Policiário já nos chamava a atenção. Natural de Olhão e residente no Barreiro, foi parar ao Brasil, onde se manteve vários anos, sempre ligado ao Policiário. Foi lá que se sagrou campeão nacional, nesta nossa secção, na época 2008/2009, provavelmente a sua maior conquista em competições policiárias e foi semi-finalista da Taça de Portugal em 2010.
Produtor exímio e prolixo, colaborou sempre com enigmas bem elaborados, que genericamente mereciam elogios dos “detectives”.


Como conviva, estava sempre presente nos eventos que o Policiário produzia, organizando durante anos o Convívio do Barreiro, também com a colaboração da Tertúlia Policiária Valtejo, a que pertencia e de que era um dos principais dinamizadores, com o Inspector Moka. Foi, aliás, no âmbito da TPV que co-orientou um espaço policiário num jornal regional.
Desapareceu, fisicamente, mais um dos “monstros sagrados” do Policiário, ficando a memória de um exemplar “detective”, um conviva excelente, um confrade de mão cheia, que deixa mais um vazio difícil de colmatar.