sexta-feira, 3 de julho de 2015

"JANTAR DE FAMÍLIA"- ORIGINAL DE RIGOR MORTIS

CONCURSO DE CONTOS MANUEL CONSTANTINO

{MENÇÃO HONROSA. 
AUTORIA: "RIGOR MORTIS", 
QUE ASSINOU O TRABALHO COMO  TCHANG}





“Jantar de família”
Original de TCHANG


A casa erguia-se, elegante, no meio do arvoredo e rodeada de um relvado bem tratado. Conhecida por “casa Saavedra”, do nome da família que lá vivia há mais de 40 anos.
Nos últimos anos tinha apenas dois habitantes, o dono, Aparício Saavedra, e o seu mordomo de longa data, Gaspar. Mas tempos houvera em que lá morava uma dezena de membros da família, entre adultos e crianças.
Aparício Saavedra, 75 anos, estatura mediana solidamente constituída, grisalho, suíças fartas, sempre impecavelmente escanhoado, era um self-made man. Começara a trabalhar aos 15 anos, moço de entregas de um talho, para ajudar os pais quando do nascimento da segunda irmã, mas aos 20 era sócio de um pequeno café, aos 25 dono de um restaurante, aos 30 co-proprietário de uma empresa de intermediação de frutas, aos 40 proprietário de uma grande empresa de importação e exportação de produtos alimentares. Pelo meio, obtivera uma licenciatura em Finanças, que lhe daria uma base sólida para uma gestão profícua dos seus negócios. Muito rico, nunca casara, não obstante se dizer que tinha conhecido e privado com várias mulheres, em tempos idos.
As suas três irmãs, já falecidas, tinham nascido entre os seus 14 e 16 anos. Casadas tarde, depois dos 30, nunca tinham sido felizes nem saudáveis. Viúvas poucos anos depois dos casamentos, viriam a falecer pouco tempo depois, deixando cada uma delas um filho – Luís Miguel, Carla e Teobaldo – de cuja educação Aparício Saavedra se encarregara.
Aparício era um homem afirmativo e persistente, mas severo e rigoroso, exigente até ao limite da maldade com os outros. Dessa maneira de ser se ressentiu a sua relação com os sobrinhos. Ternura era um sentimento inexistente, quer entre eles, quer em relação ao tio.
Luís Miguel, 27 anos, alto, olhos perscrutantes e cabelos castanhos, tinha sido um enfant terrible. Mulherengo, de sorriso fácil e conversa fluente, esperto e oportunista, cedo revelara a sua personalidade aventureira, em detrimento dos estudos. Não fora isso e teria sido o sobrinho favorito, pelo seu estilo afirmativo. Assim, o tio nutria por ele um certo desprezo, ainda que mesclado de inveja.
Carla, 26 anos, licenciada em Relações Internacionais, era alta, bonita e solteira, nem se lhe conhecendo namorados. Ruiva, de cabelo farto e ondulado, tinha uma personalidade forte. Tal como o tio, era inteligente, reservada, fria, calculista e distante. Aparício tivera sempre um fraquinho por ela, sem que tal o fizesse abrandar as exigências. Pelo contrário, era dela que ele mais exigia, sempre.
Teobaldo, 23 anos, era totalmente diferente. Baixo, gordo, flácido de corpo e de personalidade, tímido, receoso e acanhado, era estudante de Matemáticas, faltando-lhe ainda 2 anos, no mínimo, para terminar a licenciatura. Era desprezado pelo tio, que o considerava como fraco e incapaz.
Gaspar, o outro residente na “casa Saavedra”, um homem alto e forte na casa dos sessenta, estava há 35 anos ao serviço de Aparício Saavedra, tendo começado como seu motorista quando fundara a sua empresa de import-export. A sua história sentimental tinha um único episódio, um casamento e divórcio já como empregado de Aparício Saavedra, com uma antiga criada da casa. Dizia-se na altura que a mulher, atraente e sensual, o teria traído poucas semanas depois de casar, e que teria sido o Aparício a suportar as despesas do divórcio. Apesar da severidade com que era tratado por Aparício Saavedra, unia-os uma longa e profunda relação, temperada com uma cumplicidade mútua.
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Naquela noite os três sobrinhos tinham regressado à “casa Saavedra”, chamados pelo tio para os informar das modificações que tinha feito nas suas disposições testamentárias. O convite era para o jantar mas estendia-se para a pernoita, já que o Gaspar lhes tinha preparado os seus antigos quartos, no primeiro andar da moradia.
Servidos pelo Gaspar, os quatro sentaram-se na velha, mas imponente, mesa de carvalho da sala de jantar. Sopa de vegetais, rosbife com puré de batata e fruta da época, regados com um vinho chileno de que Aparício muito gostava. Apreciador de vinhos e bebidas generosas, Aparício bebia com um ritual sui generis, muito seu. O primeiro gole, antecedido de um grande espaço de tempo em que apenas contemplava o copo e aspirava profundamente os aromas, era mantido na boca por largos segundos, para completa submersão das papilas gustativas. Os goles seguintes, de grande volume, eram rapidamente engolidos.
As conversas foram agressivas, como era timbre entre eles desde há muito.
– Qual a tua última aventura, Luís Miguel?
– Colômbia. Terra de grandes oportunidades, sabe?
– É… Droga, corrupção, crime… É só escolher… – comentou a Carla.
– Não é bem assim! Já foi, agora não. Tu, mestre em relações internacionais, devias bem saber como as coisas mudaram por lá…
– Então por que não ficaste lá?! O ambiente dava bem contigo, de certeza…
– A verdade é que segurança e confiança não são as palavras de ordem por aquelas bandas – disse o tio – mas isso nunca te fez hesitar, de facto.
– Ora! Diga-me lá onde é melhor! Aqui, não?... Por lá terias excelentes possibilidades de finalmente arranjar um marido! Até tu, Teobaldo, te safavas!...
– Eu?!... Er… Quer dizer… achas que sim? – atreveu-se Teobaldo a perguntar.
– Vai-te lixar! – explodiu a Carla ao mesmo tempo.
– Deixa-te de parvoíces, Luís Miguel – interrompeu Aparício – aquilo é terra onde só vingam aventureiros sem escrúpulos como tu. Quanto a ti, Teobaldo, mais vale que procures terminar o teu curso, ao menos para teres alguma coisa em que assentar o teu futuro. Nunca terás grande futuro, sendo como és, mas enfim… E tu, Carla, já vai sendo tempo de pensares em família!
– Só se for com algum japonês, chinês ou vietnamita que tenha jeito para cozinhar – retorquiu Luís Miguel, sarcasticamente. – Nunca te vi satisfeita senão a comer pratos orientais!...
– Chega! Depois do jantar – continuou Aparício – quero conversar com cada um de vocês na biblioteca.
A seguir ao café, pelas dez e meia, Aparício Saavedra dirigiu-se para a biblioteca, dizendo ao Gaspar para lhe levar o cognac e para fazer entrar cada um dos sobrinhos – o Luís Miguel, a Carla e o Teobaldo, por essa ordem.
– E não quero ninguém a escutar à porta!
Foram três conversas rápidas, meia dúzia de minutos com o Luís Miguel e depois com a Carla, apenas dois ou três minutos com o Teobaldo. Foi o tempo necessário para o Gaspar levantar a mesa.
Quando Teobaldo saiu, os três sobrinhos retiraram-se para os respectivos quartos, no primeiro andar, sem sequer dar as boas noites. Pouco depois, Gaspar entrou na biblioteca para perguntar se o patrão precisava de mais alguma coisa. Ao sair fechou a porta e dirigiu-se para o seu quarto, junto à cozinha.
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Na manhã seguinte, pouco depois das sete, Gaspar dirigiu-se novamente à biblioteca, para guardar a garrafa de cognac. Encontrou Aparício Saavedra na mesma poltrona em que o vira na noite anterior. Esgar pronunciado da boca, evidência de vómitos sobre o peitilho da camisa, rosto fortemente contraído, nariz, orelhas e dedos arroxeados, fizeram-no crer que o seu patrão teria sido envenenado.
Pegando no telefone, ligou imediatamente para a polícia e reportou o facto. Depois subiu ao primeiro andar, acordou e avisou os três sobrinhos, instando-os a esperarem pela polícia na sala de jantar.
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A polícia chegou à “casa Saavedra” pouco depois das oito horas – dois agentes, o médico-legista e o inspector Francisco Campos.
Conduzidos pelo Gaspar à biblioteca, o inspector observou rapidamente o cadáver, grotescamente contorcido numa das duas excelentes poltronas de cabedal, à entrada da sala, tomando nota mental dos sinais evidentes de envenenamento e da mesinha de apoio ao seu lado, onde estava uma garrafa de Courvoisier e um balão. Dedicou depois a sua atenção, com evidente prazer, à impecável ordenação da enorme e cuidada colecção de livros. Sem dificuldade encontrou secções de livros de viagens, de romances históricos, de mistérios policiais, de história da Europa e de Portugal, de astronomia… E, ao fundo da biblioteca mas com evidente realce, de edições antigas, muitas manifestamente valiosas.
Deixando os agentes e os sobrinhos na sala de jantar, fechou a porta da biblioteca atrás de si, foi para um recanto da biblioteca no extremo oposto à entrada, e começou os interrogatórios pelo Gaspar, enquanto o médico-legista examinava o cadáver.
– Entrou alguém nesta sala? – perguntou.
– Apenas eu, inspector – respondeu Gaspar. – Entrei pouco passava das sete, vi como estava o senhor Saavedra e decidi chamar imediatamente a polícia, ali daquele telefone. Não mexi em mais nada, fechei a porta da biblioteca e não deixei aqui entrar mais ninguém.
– Aquela garrafa de brandy?...
Cognac, inspector. Como habitualmente, o senhor Saavedra tomou um cognac depois do jantar. Aqui na biblioteca, enquanto conversava com cada um dos sobrinhos.
– A que propósito estavam cá os sobrinhos? Ou viviam aqui em casa?
– Não, já há alguns anos que aqui não vivem. Mas ontem o senhor Saavedra chamou-os cá para jantar e pernoitar, porque os quis informar das alterações que tinha feito no seu testamento.
– Testamento? – inquiriu o inspector – E o que é que ele deixou a cada um dos sobrinhos?
– Não faço ideia, inspector. Nem ele nem os sobrinhos me disseram fosse o que fosse.
– E você? Coube-lhe alguma parte da herança?
– O senhor Saavedra disse-me em tempos que quando morresse me deixaria o suficiente para o resto da minha vida – respondeu Gaspar. – Aprendi há muito que ele nunca fazia uma falsa promessa, por isso nunca lhe perguntei nada sobre o assunto.
Instado pelo inspector, Gaspar retratou em pormenor a personalidade de Aparício Saavedra e de cada um dos sobrinhos. Referiu, com profusão de detalhes, que o relacionamento entre eles tinha sido sempre tenso e agreste, por força da maneira de ser do tio. Mas acrescentou que nunca ele tinha desleixado as suas responsabilidades como único parente dos “pequenos”.
– Num homem aparentemente solitário, como você, parece-me estranho conhecer tão bem as vidas dos Saavedra – comentou o inspector.
– Quem recorda nunca está só, inspector…
Relatou depois as conversas havidas ao jantar, com igual minúcia e precisão, em particular os “mimos” trocados entre os primos e entre estes e o tio Aparício.
– Foi depois do jantar que o senhor Saavedra foi para a biblioteca, pedindo-me que ali lhe servisse o cognac, onde teve as conversas com os sobrinhos, penso que sobre o testamento. Por ordem expressa dele, as conversas foram em privado, com a porta fechada, primeiro com o Luís Miguel, a seguir com a Carla e por fim com o Teobaldo. Foram conversas curtas, apenas alguns minutos com cada um. Mas a mais curta de todas foi a última, com o Teobaldo. Acho que não terá durado mais que dois minutos. Quando os sobrinhos subiram para os quartos, entrei na biblioteca para ver se o senhor Saavedra precisava de mais alguma coisa. Depois fui-me deitar.
– Ele pediu-lhe mais alguma coisa? E como o achou?
– Disse-me apenas que não… – Gaspar hesitou – mas fê-lo com um certo esforço, como se estivesse em sofrimento. Imagino que as conversas com os sobrinhos não tivessem sido agradáveis…
– Está bem – disse o inspector. – Faça-me entrar o Luís Miguel para aqui.
Ao entrar na biblioteca, Luís Miguel olhou intensamente para o corpo do tio, à volta do qual se afadigava o médico-legista, e seguiu para o recanto de onde o inspector o observava.
– Diga-me tudo o que aconteceu quando você e o seu tio, ontem depois do jantar, tiveram a vossa conversa aqui na biblioteca.
– Bom… Isso diz-se muito facilmente… Ele nem sequer me mandou sentar… Estava sentado na poltrona, agarrado ao seu balão de cognac, a cheirá-lo profundamente como de costume, enquanto me dizia que a minha parte da herança seriam os seus dois carros, um Mercedes e um Bentley. “Não mereces mais nada”, disse-me ele, “mas como és filho da minha irmã, vou ainda dar-te um livro da minha biblioteca. É um livro valioso! Vê lá o que fazes com ele!”
– Levantou-se da poltrona – continuou o Luís Miguel – foi a uma estante aqui ao fundo e regressou com um livro que me passou para as mãos. Vi que era uma espécie de atlas, com mapas antigos. Perguntei-lhe o que é que recebiam os meus primos… “Não é da tua conta!”, foi a resposta dele. “Cada um dos teus primos terá a parte que merece. O Gaspar, pela sua fidelidade e dedicação, terá um quarto dos meus bens. O resto será entregue a uma instituição de caridade.” E tomou um gole de cognac, que saboreou na boca enquanto olhava para o meu espanto! E mandou-me embora.
– De que é que acha que o seu tio morreu? – perguntou o inspector.
– Não faço ideia, mas pelo aspecto diria que de envenenamento. A cara dele faz-me lembrar umas cabeças que vi num museu da Colômbia, de homens alvejados pelos índios do Amazonas com setas com curare…
Acompanhando o Luís Miguel até à porta, o inspector notou que aquele evitou tornar a olhar para o corpo do tio. Chamou a Carla e encaminhou-se com ela até ao mesmo recanto da biblioteca. Ao passar ao lado da poltrona onde estava o corpo do tio, a Carla pareceu estremecer. Ao sentarem-se no recanto, em frente um do outro, o inspector notou a intensa palidez que lhe tomara o rosto.
– Conte-me o que se passou quando você e o seu tio, ontem depois do jantar, tiveram a vossa conversa aqui na biblioteca.
– Foi uma conversa rápida, apenas alguns minutos – respondeu a Carla, após uns segundos em que, nitidamente, procurava controlar as suas emoções. – O tio Aparício disse-me apenas que, quando ele falecesse, eu receberia um terço dos seus bens. Além disso ia dar-me um valioso livro da sua biblioteca. Deixou-me ali de pé enquanto foi buscar o livro, deu-mo e mandou-me embora.
– Já olhou para o livro? – perguntou o inspector.
– Sim, quando cheguei ao meu quarto. É uma edição antiga da “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, do século XVII. Calculo que vale uma fortuna.
– O seu tio bebeu do balão de cognac enquanto você esteve com ele?
– Não – respondeu Carla, após uma pequena pausa. – Nem sequer pegou nele.
– Sabe o que recebem da herança os seus primos?
– Não. Ele não me disse e eu também não perguntei – respondeu a Carla, baixando a cabeça.
– De que é que acha que o seu tio morreu? – perguntou o inspector.
Levantando a cabeça num gesto sobressaltado, Carla respondeu:
– Parece-me óbvio que ele foi envenenado…
O inspector levou a Carla até à porta da biblioteca e mandou entrar o Teobaldo. Este, ao ver o corpo do tio, quedou-se estático e pálido, começando a tremer convulsivamente ao fim de alguns segundos. Pegando-lhe por um braço, levou-o até ao mesmo recanto da sala, de onde, sentado na cadeira onde os primos também se tinham sentado, não podia ver o cadáver.
– Acalme-se e diga-me tudo o que aconteceu na sua conversa de ontem à noite com o seu tio, aqui na biblioteca…
Muito a custo, gaguejando e até soluçando, Teobaldo lá respondeu à pergunta:
– O t-t-tio Aparício chamou-me para me dizer que me p-p-pagaria uma pensão até eu acabar os estudos, mas que daí em diante teria q-q-que me g-g-governar sozinho. Depois foi b-buscar um livro e deu-mo, dizendo “Este livro é para ti. Se um dia tiveres necessidade p-p-poderás vendê-lo, o seu valor p-p-permitir-te-á v-viver vários anos.”
– Já olhou para o livro?
– Er… Não… Ainda não… G-G-Guardei-o na maleta que trouxe ontem.
Ao levá-lo para fora da sala, o inspector fez o possível para que o Teobaldo não passasse perto do cadáver do tio, nem que tivesse a possibilidade de olhar para ele.
………………………………….
Regressando à biblioteca, fechou a porta e perguntou ao médico-legista:
– Então, doutor… Que tem para me dizer?
– É a primeira vez que vejo um caso destes… E olhe que já tenho muitos anos disto! Não fosse a minha curiosidade profissional e os benefícios da internet, estaria aqui à nora… Pelo menos até completar uma série de testes laboratoriais…
– Vá lá, vá lá, doutor…
– Este homem morreu de paragem respiratória provocada por envenenamento. Mas antes de morrer passou pelas passas do inferno! O esgar da boca – de toda a cara! – os vómitos, as mãos contraídas a agarrar desesperadamente os braços da poltrona, a posição das pernas… Tudo aponta para um sofrimento inaudito, ainda que não tenha durado muito tempo!
– Pode dizer-me a que horas ocorreu o óbito?
– Por aquilo que vi, há dez horas atrás – respondeu o médico-legista, olhando para o magnífico grand-father clock que estava por trás da poltrona, que mostrava 9h15 – mas garantias só depois de uma autópsia!
– Portanto às onze e um quarto… O jantar terminou às dez e meia… E as conversas com os sobrinhos foram apenas de alguns minutos… Humm…
– Hein?! – exclamou o médico-legista.
– Que tipo de veneno poderá ter provocado uma morte assim, actuando para aí numa meia hora?
– Alguma vez comeu fugu, inspector? – respondeu o médico, de mau humor. – Aconselho-o a nunca o fazer!
– Fugu? Que diabo é isso?
– Uma iguaria japonesa, feita com um peixe chamado peixe-balão, ou baiacu, que existe nas costas do Japão mas também noutros sítios, como na América do Sul. Acontece que nas gónadas e no fígado desses peixes se acumula uma toxina tremenda, a tetrodotoxina… Se o sashimi for feito sem os conhecimentos necessários… Bom… É uma morte assim como a deste tipo! Se tiver sorte, poderá ainda viver um par de horas, se não… Uma meia hora chega!
– Ah! – Acrescentou o médico. – E ou me engano muito, ou o balão de cognac de onde ele bebeu ainda tem restos do veneno!
– Confio na sua experiência, doutor… E baseado na sua conclusão e no que fiquei a saber com os interrogatórios que fiz, penso que já sei o que aconteceu… E quem foi o assassino…
O inspector saiu da biblioteca, foi até à sala de jantar, onde estavam, compungidos, Gaspar e os três sobrinhos do Aparício Saavedra. Chamando os dois agentes que tinham vindo com ele, deu-lhes instruções em surdina… Os agentes saíram da sala e subiram ao primeiro andar da moradia…
………………………………….
E você, Leitor? Quais são as suas conclusões?
A última parte do texto vai desvendar o caso. Não continue a leitura sem tirar as suas próprias conclusões!
………………………………….
– Ora bem… – disse o inspector Francisco Campos, após uma pausa de alguns minutos, dirigindo-se aos quatro. – Presumo que três de vocês quererão saber quem foi que matou o Aparício Saavedra, envenenando o cognac que ele tomou na biblioteca…
Os quatro, Luís Miguel, Carla, Teobaldo e Gaspar, olharam uns para os outros, mas nada disseram.
– Comecemos pelo Gaspar… Ele não foi o assassino. Nada tinha a ganhar em o matar, pelo contrário. Acostumado como ele estava a servi-lo como mordomo, tinha a sua vida garantida e razoável enquanto o patrão vivesse… E se estão a pensar na parte da herança que o Aparício Saavedra lhe deixou, desenganem-se… Condenado pelo seu assassínio não receberia um cêntimo… Já agora, Gaspar, quando se despediu dele, ontem à noite, o senhor Saavedra estava em sofrimento, sim, mas não por causa das conversas com os sobrinhos. Era o veneno que já começara a fazer sentir o seu efeito.
– O Teobaldo também não foi – continuou. – Manifestamente, nunca teria a coragem de o fazer… Além disso, tendo sido o último a ter a conversa com o tio, o veneno não poderia ter começado a fazer-se sentir dois ou três minutos mais tarde, quando o Gaspar lhe foi perguntar se precisava de mais alguma coisa.
Nesse momento os agentes desceram do primeiro andar. Um deles, dirigindo-se ao inspector, deu-lhe discretamente um pequeno saco de plástico com qualquer coisa dentro, enquanto lhe sussurrava ao ouvido. O inspector, de costas para os quatro, olhou para o objecto dentro do saco de plástico e sorriu-se.
– O Luís Miguel é um claro candidato a assassino… Não só pela sua experiência de vida, mas também como vingança pelo desprezo com que o tio o tratou, em vida e relativamente à herança… Mas era preciso que tivesse sabido da decisão testamentária em relação a si bem antes do jantar, para poder preparar o envenenamento, e tal não foi o caso, obviamente. Mais importante do que isso, no entanto, foi o facto de ter sido o primeiro a ter a conversa final com o tio… Vocês conhecem o ritual de bebida dele. Se o envenenamento do cognac tivesse sido feito pelo Luís Miguel, nunca teria passado despercebido ao Aparício Saavedra ao saborear o primeiro gole logo antes de o mandar embora…
– E falta aqui a Carla, não é?... Pois é… Deve-lhe ter sido muito difícil aceitar que o seu tio até lhe tinha uma certa afeição, mas que nem por isso deixava de lhe exigir mais que a qualquer dos seus primos, nem de a tratar com menos dureza. Pelo sim, pelo não, decidiu que o melhor seria que ele morresse, agora que tinha refeito as suas disposições testamentárias… Acreditava que ele lhe iria deixar uma parte substancial da herança, mas não podia confiar em que ele não viesse mais tarde a reduzir a sua parte. Ao ver o balão de cognac poisado na mesinha, percebeu que a primeira parte do ritual de bebida do seu tio já tinha ocorrido… Era a sua oportunidade, única… Foi só aproveitar o meio minuto em que ele se afastou para ir buscar o livro que lhe ofereceu para despejar o veneno no balão… O segundo trago de cognac seria grande e rápido… Mas foi uma enorme imprudência da sua parte ter guardado o frasquinho em que trouxe o veneno junto aos seus perfumes… Talvez para se livrar dele num local mais discreto e seguro, não?

E o inspector Francisco Campos exibiu o saco de plástico que lhe tinha sido entregue pelos agentes.

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